sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Soneto" - Luís Vaz de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

sábado, 7 de janeiro de 2012

"E Por Vezes" - David Mourão-Ferreira

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes 

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tornarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

"Surdina de Natal Para os Meus Netos" - David Mourão-Ferreira

Ó David  Ó Inês
Vamos ver o Menino
inda mais pequenino
que vocês

Vamos vê-lo tapado
sob o céu do futuro
com a sombra de um muro
a seu lado

Vamos vê-lo nós três
novamente a nascer
Vamos ver se vai ser
desta vez

Pedro Tamen

Ouves, meu amor, água que brotou
no côncavo da pedra que a tua mão marcou?

Ouves, meu amor, o passo do veado
correndo no caminho que só por nós pisado?

Entendes, meu amor, a voz que fala agora
do tempo que esperou, da lenda e só demora?

Já era onde nós somos a nossa paz presente.
Só nós encontrámos nela e agora é que sente.

Alumiam-se as noites, Deméter aparece,
tu sentas-te a meu lado e o trigo reverdece,

Pedro Tamen

Hoje trago-te o vento; eu sei
que mais não pode ser o que te der.
E calo-me; o resto já to dei,
ao teu sereno pasmo de mulher.

Hoje trago-te o vento, vento,
o que ele tem mudado para nós.
(O nosso passo antigo que era lento
juntou-nos de repente numa voz.)

Hoje trago-te o vento renovado,
o vento que de longe chegou cá:
em cada monte e esquina foi lavado

para chegar ao fundo do que há
nesta pobreza de hoje, e, cá chegado,
entrar na mão de carne que to dá.

"Tempo da Lenda das Amendoeiras" - José Carlos Ary dos Santos

Era uma vez um país
na ponta do fim do mundo
onde o mar não tinha eco
onde o céu não tinha fundo.
Onde longe longe longe
mais longe que a ventania
mais longe que a flor da sombra
ou a flor da maresia
em sete lagos de lume
sete castelos de sal
sete cristais de perfume
sete lâmpadas de vinho
sete punhais de ciúme
sete coroas de azevinho
sete pétalas de mel
sete pulseiras de sal
uma princesa vivia
com sete véus de coral
sete estrelas por docel
sete pedras por degrau
sete nuvens por anel
e sete céus por caminho.

Era uma vez um país
na ponta do fim do mundo
onde o mar não tinha eco
onde o céu não tinha fundo
Onde longe longe longe
mais longe que a luz do dia
mais longe que a flor da sombra
ou a flor da ventania
uma princesa nascia
da corola do seu tempo
enquanto a neve caía
dos seus dois braços de vento.

"As Mãos" - Manuel Alegre

Com mãos se faz a paz se faz a guerra
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.